Óbidos’ Lounge Fashion

 Sei que não é nenhum festival de moda. Nem que os escritores vão lá para se mostrarem. Também sei que não é um evento social. Mas o Festival Literário de Óbidos, o internacional FOLIO, pareceu-me, por instantes, tudo isso. De repente, há um boom de notícias e fotos de autores ora sós ora em grupo, a darem entrevistas para aqui e para acolá. Tudo “o máximo”, encontros superinteressantes e tal. Até acredito mas…                                     O ambiente parece o de um lounge sofisticado, cruzado com uns designs ultramodernos e uns looks, vá lá, mais esmerados do que há alguns anos. Espero que não tenham tido a pouco original de ideia de por música ambiente! Isto não é bem dizer mal. É só ter saudades do tempo em que os escritores não eram tão mediáticos nem tão acessíveis. Eram mais difíceis e tinham um ar mais distante mas não propriamente afectado. Antes das feiras e agora dos festivais, havia mais “mística”. Sim, essa mesma que existe no futebol. 

De súbito, parece maior o número de autores do que o da assistência. É demasiada concentração de escritores. Há spots de acontecimentos, mesmo que não lhes atribuam esse nome. Por favor, mais mistério e recato combinam melhor com o nosso imaginário do mundo literário. Ainda gosto de pensar que cada escritor tem um mundo inatingível, que nos faz senti-los como imortais e, a nós, leitores e público, mais mortais. Sim, é uma ideia muito superficial e, como tal, provavelmente injusta. Mas não é mais sedutora? Resta-me o consolo secreto de saber que não sou só eu… 

 

O CHAT SEM CHÁ

“Agora não posso falar. Está aqui a minha mãe. Beijinhos”; “Já te respondo, estou a guiar!”; “Mas quem é que disse isso? Foi num post ou num comentário?”; “Como é que sabes se ele me bloqueou se  foste desamigado?”; “Jura que não leste o Saraiva!”; “Quantas pessoas estão nesta conversa?!”     É assin o dia comum de alguém que use as redes sociais ou chats. Com regras socialmente reprováveis. Malcriadas. Perigosas à circulação.                                             A ver: se estamos com a mãe não respondemos nem escrevemos, certo? Teclar e guiar ao mesmo tempo? Isso é um perigo. Não podem esperar? E as conversas de uns sobre outros que não se falam entre si? Não é intriguista avisar um amigo que este está bloqueado? Qual é a pressa? O que se diz em mensagem privada é um mundo paralelo. Como uma cidade subterrânea. Virtudes públicas, vícios no…chat! Não julgo pois também faço parte desse basfond digital… Com a agravante de que fica tudo escrito! Arrependermo-nos? Não há tempo para isso. As deslealdades no chat pagam-me com a cobardia de uma “boca” ou de um bloqueio. Duelos são nas teclas, não olhos nos olhos. Não há chá no chat. 

O REGRESSO ÀS FLAUTAS

 

Dentro do orçamento médio por criança em idade escolar, estima-se que os pais gastem cerca de 500 euros. Entre manuais, roupa de desporto, estojos e mochilas, a flauta bisel é certamente a grande dor de cabeça. Pelo menos, a financeira. Agora, em qualquer hipermercado, existem-nas de plástico a preços acessíveis. Apesar da facilidade de custo e até de material, os encarregados de educação nem sabem o que vão meter em casa! O ensino da música nunca foi, como todos sabemos, a grande prioridade do ensino oficial deste país. A disciplina Educação Musical aparece de mansinho no 2º ciclo do ensino básico (5º e 6º anos de escolaridade) mas acaba em queda livre… Aprende-se a escala e, com sorte e férias pelo meio, consegue-se tocar as primeiras notas do “Hino da Alegria”. Tendo em conta os estudos sobre a idade para se começar a aprender um instrumento, que deve ser adequado à idade e à personalidade de cada um, a flauta surge demasiado tarde e… mal. Nesta situação, das duas uma: ou a criança já tem uma manifesta vocação musical ou fica confinada a instrumentos de sopro. “Não é muito difícil”, pensarão. Afinal, é “só” soprar e tapar os buracos com alguma destreza e concentração… Mas a realidade é outra. Do entusiasmo inicial (dos pais ou dos filhos) passa-se muito rapidamente a uma espécie de inferno doméstico .A qualquer hora a criança pega na dita de bisel e começa a treinar escalas, a enervar os irmãos e a soprar para bem longe a paciência de todos, vizinhos incluídos. É que nunca ouvi um elogio de jeito à dita flauta. Não conheço ninguém que tivesse prosseguido a sua arte nem que a tivesse guardado como objecto de estimação. É que todos se queixam!

O peso do “K”

Já temos o “special K” metido na Troika (já repararam o ênfase quase prazenteiro com que o Louça e o Jerónimo de Sousa dizem Troika. Eu já: tem a ver com tudo e fica bem – também concordo – no lettring dos cartazes e nas palavras de ordem. . Se fôsse uma Junta, não desempatava e cheirava a centro de saúde. O “K” merece-me respeito, a começar pelo Kafka, que nasceu logo com dois. Quando soube do acordão do Tribunal Constitucional, pus-lhe automaticamente um “K”. Pelo menos, o impacto foi o de um “K”: sólido, pesado, inflexível. Ninguém festeja? Porquê? Menos razões para manifestar? Não acho que estejamos estão sindicalizados. Assim, tanto tanto…acho que não. O que se passará, então. Tendo em conta o estado assustadiço da função pública em funções, com um medo real do despedimento, isto deve soar a presente envenenado. Mas a ser verdade, é uma coisa boa. Quem deve estar preocupado são os trabalhadores por contas de outrém ou da própria. Vão sentir-se enfraquecidos e com razão. Se não tiram ali, tiram aqui. Um Estado mais pesado vai pesar em todos. O que ainda não percebemos todos (ou ainda bastantes) é que o peso do “K”, esse som forte e seco vai bater na nossa aldeia local. Skanevasse… faziasakasky…